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O Itamaraty e o design II: Aloísio Magalhães

Publicado: Terça, 04 de Novembro de 2014, 23h12

Comemoramos hoje, 5 de novembro, o dia do design. A data foi instituída em homenagem a Aloísio Magalhães, designer que criou o simbolo RE do Itamaraty (baixe aqui o diagrama construtivo original como imagem de fundo do seu celular) e que, à frente do Centro Nacional de Referência Cultural, do IPHAN, da Fundação Pró-Memória e da Secretaria de Cultura do MEC, foi responsável por uma inovadora  política de preservação e de incentivo à cultura brasileira.

 

 

O símbolo RE e os arcos do Palácio Itamaraty

O símbolo RE foi desenvolvido em 1966, juntamente com o projeto do Palácio Itamaraty (1962-1967), por encomenda de Wladimir Murtinho, responsável pelas obras do e grande amigo de Aloísio Magalhães. 

 

Aloísio havia se instalado no Rio de Janeiro em 1960 e, à frente de uma pequena equipe, vinha criando logomarcas para diversas instituições, muitas das quais continuam em uso até os dias de hoje, como as do Unibanco (1962), da Universidade de Brasília (1963) e da Bienal de São Paulo (1965). No momento da encomenda do Itamaraty, Aloísio havia acabado de vencer o concurso para o símbolo das comemorações do 4º Centenário da Cidade do Rio de Janeiro (1964), marca imediatamente adotada pelos cariocas.

   

 O projeto original e sua "aplicação" num carrinho de sorvete e em maiôs duas peças.

As pranchas originais de apresentação do símbolo RE preparadas por Aloísio Magalhães continham interessantes sugestões de uso em louças, maçanetas, padrões repetitivos e até mesmo uma projeção tridimensional.

 

No entanto, não havia um manual de aplicação do símbolo. O RE criado por Aloísio foi se incorporando aos poucos aos diversos formulários em uso no Itamaraty e chegou até mesmo às xícaras e colheres de café.

Mais do que uma logomarca, porém, Aloísio deu ao Itamaraty uma ideia, que foi diversas vezes reinterpretada ao longo dos anos. Sempre guardando o formato alongado e a referência aos arcos, o RE evoluiu pela mãos dos próprios funcionários da casa. Destaca-se o desenho de Rubens Pereira de Souza, calígrafo do Cerimonial, utilizado na cor vermelha nos formulários para a redação de despachos telegráficos até o advento dos sistemas informatizados.

 

 

Nos anos seguintes, Aloísio Magalhães continuou a criar marcas e projetos de identidade visual que se incorporavam imediatamente ao imaginário popular, como Petrobrás (1970), Itaipu (1975), Açúcar União (1975), Banco Central do Brasil (1975), Embratur (1977), entre várias outras. O portfólio de sua empresa, a PVDI, confeccionado em 1977, dá uma dimensão da importância de seu trabalho para o design gráfico brasileiro.

 

 Do teatro amador ao design

Nascido no Recife em 5 de novembro de 1927, Aloísio Magalhães desde cedo demonstrou pendor pelo desenho e pelas artes. Participou do Teatro do Estudante de Pernambuco, assumindo a responsabilidade pelos figurinos e cenários. Graças a Wladimir Murtinho, recebeu uma bolsa da Embaixada da França, e estudou na Escola do Louvre preparação para conservadores de museus. Paralelamente, frequenta o Atelier 17, do célebre pintor e gravador Stanley William Hayter.  Volta ao Brasil em 1953, e, enquanto avança sua carreira de pintor, funda  com amigos "O Gráfico Amador", editora de livros artesanais criada com o objetivo de suprir a falta de editoras em Recife. A qualidade do trabalho do Gráfico Amador é imediatamente reconhecida no Brasil (Drummond elogiava o livro As Conversações Noturnas como " um desperdício de beleza") e ganha críticas positivas na imprensa especializada internacional.

Desenho de Aloísio Magalhães para "As Conversações Noturnas", de José Laurenio de Melo

 

Página de "Pregão Turístico do Recife", de João Cabral de Melo Neto

 

Em 1956, nova temporada no exterior, graças a uma bolsa do Departamento de Estado americano. Até 1959, volta algumas vezes aos EUA. Expõe em Washington e em Nova York, onde o MoMA adquire uma de suas obras. Desenvolve uma rica colaboração com o artista gráfico Eugene Feldman, que se entusiasma pelo Brasil e pela língua portuguesa. A parceria resulta em dois livros de experimentação gráfica: Doorway to Portuguese e Doorway to Brasilia, este resultado de uma viagem ao Brasil. Também leciona no Philadelphia Museum College of Art.

 

Doorway to Brasilia

Aloísio ainda prossegue a carreira de pintor por alguns anos, antes de voltar definitivamente ao Brasil, mudar-se para o Rio e abrir seu primeiro escritório de design em 1960.

Do design às políticas culturais

Instigado por uma pergunta do Ministro da Indústria e Comércio, Severo Gomes, "Por que não se reconhece o produto brasileiro? Por que ele não tem uma fisionomia própria?" Aloísio se lança numa profunda reflexão sobre o papel da cultura no processo de desenvolvimento brasileiro, que o conduziria a empreender uma das mais inovadoras políticas culturais já vistas desde Mário de Andrade.

Funda em 1975 o Centro Nacional de Referência Cultural, um convênio entre a Secretaria de Planejamento da Presidência da República; os Ministérios da Educação, da Indústria e Comércio, da Educação e das Relações Exteriores; a Universidade de Brasília; a Caixa Econômica Federal; e o Governo do Distrito Federal. A diversidade de participantes reflete os princípios incrivelmente modernos para a época que pautaram a atuação do CNRC, e que se evidenciam nas quatro linhas de pesquisa desenvolvidas pela instituição: artesanato; levantamentos socioculturais; história da tecnologia e da ciência no Brasil; documentação sobre o Brasil. Linhas de pesquisa como "O Estudo Multidisciplinar do Caju" antecipam em 20 anos a adoção do conceito de patrimônio Cultural Imaterial pela UNESCO.

Aloísio assume em 1979 o IPHAN, e inicia uma série de mudanças na configuração das instituições culturais federais que resultará na criação da Secretaria de Cultura do Ministério da Educação, em 1981, da qual foi o primeiro titular. Nesse período, Aloísio inscreve Ouro Preto e as ruínas de São Miguel das Missões como Patrimônio Mundial da Unesco e lança a candidatura de Olinda. Arremata ainda autos originais da Inconfidência Mineira que estavam sendo levados a leilão na casa Sotheby's de Londres.

Aloísio Magalhães faleceu em Pádua, em 13 de junho de 1982, representando o Governo brasileiro em uma reunião de Ministros da Cultura de países latinos. As Diretrizes para operacionalização da política cultural do MEC, cuja elaboração organizou em 1981, foram a base dos artigos 215 e 216 da Constituição de 1988, que consagram a defesa das manifestações das culturas populares, indígenas e afro-brasileiras, e das de outros grupos participantes do processo civilizatório nacional e introduzem a noção de patrimônio cultural imaterial.

 

Aloísio Magalhães e o Barão do Rio Branco

Nenhum trabalho de Aloísio Magalhães ficou tão marcado no imaginário popular quanto os desenhos para as cédulas de Cruzeiro. Aloísio Magalhães foi convidado a desenhar as primeiras notas impressas no Brasil, em 1966. O designer cria uma nova solução para evitar a falsificação das cédulas com base na superposição de dois padrões reticulados (o chamado efeito Moiré). Em 1972, comemorando o sesquicentenário da Independência, Aloísio concebe a cédula de 500 cruzeiros, com desenhos que representam a formação étnica do povo brasileiro e, no verso, a formação do território nacional.

 

Em 1977 Aloísio volta às pranchetas, para desenhar as cédulas de Cr$ 1000,00, com a efígie do Barão do Rio Branco, patrono da diplomacia brasileira. Graças a essa cédula, que circulou de 1978 a 1989, a palavra "barão" passou a designar no linguajar popular qualquer valor múltiplo de 1000. Ainda hoje, escuta-se pelas ruas expressões do tipo: "isso custa dois barões", e a figura do Barão do Rio Branco tornou-se ainda mais popular.

 

Este artigo contou com a valiosa colaboração de João de Souza Leite, Joaquim Redig de Campos e Rafael Rodrigues, que trabalharam junto com Aloísio Magalhães no projeto do símbolo do Itamaraty, da professora Vanessa Johnson, e de vários funcionários do Ministério que ajudaram a equipe do blog a localizar antigos formulários e aplicações do 'RE'.

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